Empresas baseadas em software livre ou com aplicações em software livre

  A questão do porque uma empresa produtora de software deve adotar o modelo de código aberto é de suma importância, pois mexe com as estruturas da economia e pode estar redefinindo conceitos que já eram tidos como imutáveis. Quando uma empresa possui 36 bilhões de dólares em caixa, é difícil argumentar que o seu modelo de negócio é inadequado. Mas convém notar que se trata de um caso único, e mesmo que se considere outras empresas de código fechado bem sucedidas, se chegará a conclusão que o número é pequeno e torna-se muito difícil para uma empresa que entre agora no mercado atingir tal nível de desenvolvimento. Além disso, empresas nascem crescem e morrem, e a empresa bem sucedida de hoje pode sucumbir amanhã pelas mesmas razões que a fizeram grande no passado. Assim, é fundamental que todas as empresas que desejam competir e manterem-se fortes estejam atentas às revoluções que ocorrem nos modelos de negócios.

A idéia de abrir o fonte dos programas e distribuí-los de graça certamente soa estranha para qualquer um. Isso porque em nossa sociedade baseada no modo capitalista de produção, é impensável que uma empresa possa fornecer seus produtos gratuitamente, o que a descaracterizaria como empresa. Mas bens de informação são algo muito recente em nossa sociedade, e somente a pouquíssimo tempo adquiriram a importância que possuem hoje em nossas vidas. Sendo assim, é grande a possibilidade de ainda não termos encontrado o modelo de negócios adequado para lidar com os mesmos. Assim, talvez a nossa suposição de que uma empresa fornecer software gratuitamente seja inviável, pode estar errada. As idéias apresentadas aqui pairam sobre terreno extremamente aberto e instável, portanto todos os aspectos aqui apresentados são conjecturas, grande parte apoiada por casos reais, mas que certamente ainda precisam ser consolidadas com a ação do tempo.

Produzir software é algo extremamente caro , trabalhoso e sujeito a bugs. É interessante notar como software com bugs tornou-se comum entre nós, sendo estes vistos como fatos quase intransponíveis na utilização do software. Entretanto, a sociedade torna-se cada vez mais exigente sobre a qualidade dos produtos que consome, o que inevitavelmente chegará ao software. E o código aberto é uma excelente maneira de produzir código robusto, o que é comprovado na prática por vários exemplos. Eventualmente, código aberto poderá se tornar uma exigência por parte dos clientes.

Primeiramente, pensemos no seguinte aspecto: Por que uma pessoa ou organização compra um software? O objetivo do software é resolver algum problema que o usuário enfrenta, ou atender a alguma necessidade do mesmo. Em todos os casos, o software encapsula um serviço, ou seja, não é algo que possui finalidade em si. Portanto, como a tarefa de um produtor de software pode ser descrita como um prestador de serviço, provavelmente existem outras maneiras de se prestar o serviço e obter lucros com isso.

Ao produzir software de código aberto, uma empresa ganha rapidez no desenvolvimento, uma vez que pode contar com colaboradores externos. Estes colaboradores, muitas vezes, são programadores de grande talento, que, por se interessarem pelo conceito do software, dedicarão parte do seu tempo livre para desenvolvê-lo. Além disso, permite que se crie uma equipe grande trabalhando no software, algo que seria muito caro se a empresa tivesse de desembolsar salários para todos esses colaboradores. Eles podem se satisfazer em trabalhar no projeto por hobby ou para buscar reconhecimento entre outros profissionais da área.

O código aberto também trará os clientes mais perto da empresa. É possível que os próprios clientes contribuam com modificações no código ou correção de bugs. Esse maior contato entre empresa e cliente pode render negócios futuros e maior lealdade a empresa.

Um caso interessante ocorre com empresas iniciantes no negócio, as "start ups". Elas normalmente saem do nada, e mesmo que possuam excelentes idéias, necessitam de forte divulgação para que seus clientes as conheçam. É muito difícil que se façam perceber no ambiente extremamente competitivo de software, além do que existe a grande possibilidade que uma empresa grande e já estabelecida lance um produto similar, e utilizando-se de sua notoriedade acabe com as chances da nova empresa. Assim, o código aberto pode ser uma maneira da empresa obter notoriedade e conhecimento rapidamente, obtendo posteriormente seus lucros através da venda de serviços agregados, como treinamento, consultoria e produtos de suporte.

Apesar de todo crescimento que vem apresentando, o código aberto ainda é um conceito novo em respeito a sua utilização por empresas. Entretanto, ja se delineiam alguns modelos de negócios que podem sustentar empresas baseadas em código fonte aberto. A terminologia foi tirada de textos disponíveis na "linkografia" e não será traduzida para não tirar o significado dos termos:
 

  Support Sellers: A idéia desse modelo de negócios é distribuir o software gratuitamente, mas cobrar por serviços associados, como manuais, distribuições, suporte e certificações de empresas aptas a instalar, configurar e administrar seu software. Esse é talvez o modelo mais visível em uso atualmente. Um exemplo de empresa que utiliza esse modelo é a Red Hat, famosa distribuidora do sistema operacional Linux.

Loss leader: A idéia de "Loss leader" é distribuir software de graça que pode alavancar a venda de outros softwares proprietários da mesma empresa. Isso torna a empresa mais visível e tráz mais oportunidades.

Widget frosting: Esse modelo de negócios é interessante, e pode ser usado por empresas de hardware. Normalmente, essas empresas tem altos custos para a produção de drivers para seus equipamentos, e estes nunca poderão ser uma fonte de renda. Portanto, é de se esperar que tais empresas abram o desenvolvimento de drivers, o que resultará em drivers melhores e de menor custo.

Acessorizing: Através desse modelo, a empresa canaliza a popularidade de seu software de fonte aberto para a venda de produtos que tragam seu logo ou complementem a experiência de usar o software. Existem vários exemplos como livros, camisetas, manuais e sistemas pré-configurados.

Licenciamento de marca: Nesse modelo , a empresa produtora de software aberto permite que outras empresas utilizem sua marca para a produção de produtos e serviços derivados de seu software, recebendo em troca um pagamento.

Sell it, Free it: Uma outra possibilidade é iniciar um produto como software proprietário, tornando-o de fonte aberta a medida que a empresa julgue isso apropriado. Note que já existem casos onde as empresas declaram software mais antigo como freeware, portanto abrir o código seria mais uma alternativa.

Franquia de software: A idéia de franquia de software é misturar os conceitos de "Support sellers" e Licenciamento de marca, autorizando mediante pagamento, que outras empresas atuem em diferentes mercados com o mesmo software aberto como base, oferecendo treinamento ou serviços certificados pela empresa que originalmente produziu o software.

 
  Esses modelos são propostas iniciais, e ainda estão longe de cobrir todo o espectro de produtores de software. Uma produtora de jogos, por exemplo, dificilmente poderá vender suporte de seus produtos, entretanto as oportunidades em venda de acessórios são gigantescas. Os personagens dos jogos podem inspirar produtos como revistas em quadrinhos, roupas e filmes.

Apresentaremos agora alguns casos em que empresas adotaram software de código aberto como parte ou totalidade de seus negócios:

 
  Conectiva: Empresa brasileira que se tornou a principal distribuidora de Linux no Brasil e América Latina. Além das distribuições empacotadas nas modalidades estação e servidor, oferece suporte específico aos clientes e desenvolvimento de soluções específicas para empresas. Possui produtos de flanco, como a Revista do Linux, que tráz notícias sobre software livre e novidades de suas próprias distribuições e do Linux em geral. Oferece também certificação a empresas que desejem oferecer suporte as distribuições Conectiva.

Cyclades: Empresa de fundação brasileira, atua na área de equipamentos de rede, e possui presença em diversos países do mundo. Recentemente iniciou o projeto NetLinOS, que visa desenvolver equipamentos de rede baseados no sistema operacional Linux e em hardware tipo PC, que apresenta custo significativamente baixo e disponibilidade alta. Apesar de ser a fundadora do projeto, estimula que outras empresas adotem o NetLinOS como software de seus produtos de rede ou até que próprios usuários que tenham vontade, tempo e capacidade técnica construam seus próprios equipamentos seguindo instruções disponíveis abertamente. A Cyclades oferece para seus clientes produtos que apresentam características próprias, por exemplo, equipamento que ocupa pouco espaço e substitui disco rígido por cartões de memória para maior confiabilidade do equipamento, além do serviço de suporte. Note que o modelo de negócios da empresa vai se deslocando em direção a um serviço, que inclui praticidade e conveniência de uso, e distanciando-se da venda de um produto.

IBM: O caso IBM de apoio ao software livre é emblemático, se considerarmos as origens da IBM. A IBM pode ser considerada o "dinossauro" da computação, basta lembrar-se que a Microsoft ainda no início de suas operações desbancou a IBM vendendo seu software e chegando a posição que hoje ocupa. Tudo na IBM sempre foi muito corporativo, contrastando com a liberdade que existe em outras empresas de alta tecnologia. Entretanto, nos últimos anos, pode ser considerado surpreendente a maneira com que a IBM vem abraçando o movimento de software livre e código aberto. Apoiou o desenvolvimento do projeto Apache, fornecendo código para o mesmo, aceitando participar seguindo as regras do projeto e respeitando a diversidade de idéias natural em um projeto de código aberto. Portou o Linux para sua arquitetura de mainframes 390, fato que causou estranheza a muitos na empresa, uma vez que o antigo OS/390 que rodava nesses servidores eram considerados como pérolas do desenvolvimento de software. Mas quando perceberam que seus mainframes poderiam ser usados com software amplamente em uso, como o servidor Apache, para sustentar aplicações web altamente requisitadas, não houve argumentos que a impedisse de fazer o porte dos softwares.
 



"Linkografia":



Artigo:
How We Reached The Open Source Business Decision
Comentários: Interessante caso de como uma empresa de software para a criacao de conteudo internet concluiu que seria mais lucrativo lancar seu produto (Zope) como Open Source


Artigo: How Big Blue fell for Linux
Comentários: História interessantíssima sobre como a IBM deu seus primeiros passos rumo a colaboração para o desenvolvimento de software de código aberto


Artigo: Setting Up Shop: The Business of Open-Source Software
Comentários: Extenso e completo artigo descrevendo como, quando e porque uma empresa deve adotar o desenvolvimento de seus produtos em código aberto


Artigo: The Open Source Case for Business
Comentários: Texto da OpenSource.org, entidade que prega o desenvolvimento de código com fonte aberta, que discute as vantagens de uma empresa adotar esse padrão de desenvolvimento


Artigo: NetLinOS - Opening the Network World
Comentários: Página do projeto NetLinOS


Site: Dinossauro.com
Comentários: Por mais estranho que possa parecer, esta é uma empresa de produtos de hardware que criou o DinoLinux, que é uma versão de Linux para sua linha de produtos e que segundo eles se destaca por ser pioneiro no conceito de "framework". Vale a pena conferir, pelo menos pela curiosidade. :-)    (O que é um dinossauro?)